Existe o reflexo de um novo eu quando olho pro espelho aqui do lado do computador. Esse novo eu é frio, não sempre, mas na maior parte do tempo, é metido a auto suficiente e não sente mais tanta vontade de abraçar.
Esse novo eu, come um chocolate quando se sente sozinho, não chora quando ta triste, não procura ninguém, não responde ninguém, acha que não precisa de ninguém, na maioria do tempo.
Eu sei la que merda é essa, estranho cada linha que meu pensamento segue, isso me deixa angustiada e eu não consigo conversar a respeito. Ouço cada detalhe das histórias contadas pelas pessoas, mas se alguém me pergunta "e você? como ta a vida?", eu não tenho o que responder, "eu to tranquila, estudando, trabalhando, indo pra igreja...". As vezes acho que todo mundo pensa que quero pagar de ocupada e responsável, como se minha vida se resumisse ao meu estágiozinho, mas é só a verdade.
Sabe o que eu aprendi? Que deveria ser mais reservada, que deveria omitir. Não me esqueço do dia do exame psicotécnico pra auto-escola, eu super cansada porque tinha passado a noite toda passando mal pra caramba, cheguei lá e a garota do meu lado fazia tudo infinitamente mais rápido que eu, terminava as coisas antes, e eu aguniada por não conseguir seguir aquele ritmo, "bem que a minha mãe sempre fala, eu sou muito lerda, meu Deus, tem algo errado comigo", e nessa fui ficando ansiosa e desatenta, acabei fazendo tudo meio que correndo. Era pra não ter passado, errei coisa besta e parece que fiquei cega pra alguns detalhes, mas a psicóloga percebeu algo meio diferente e me chamou pra conversar. Falei o que tava acontecendo e ela me disse muitas coisas, que a menina responder as coisas rápido não queria dizer que tava respondendo certo, que cada um tem seu tempo, assim como o babaca do meu instrutor que falou a mesma frase no começo quando eu ficava louca por não conseguir fazer algumas coisas, e também quando comecei a tocar violão e tinha vontade de arrancar meus dedos toda vez que não tinha cordenação pra trocar os acórdes e fazer a batida ao mesmo tempo, a Tuti lá, toda calma, repetia as mesmas palavras. Enfim, infinitas situações em que ouvi essa frase: cada um tem seu tempo.
Outra coisa que me lembro, e acho que influenciou muito no modo como me vejo hoje, foi quando a psicóloga do psicotécnico me viu com os olhos cheios de lágrimas quando achei que não ia passar, ela me perguntou se quando meu chefe me pressionava, eu também "chorava", eu disse que não, que no máximo ficava com os olhos cheios de lágrimas, foi então que ela virou pra mim e disse: "ficar com os olhos marejados também é chorar, você não pode fazer isso, tem que ser profissional."
Carreguei essa palavras por dias, e nas situações de muita pressão apertei os dedos dos pés e os dentes com toda a foça, mas meus olhos permaneceram intáctos.
Minha amiga saiu do trabalho, e por mais que meu coração tivesse acabado, eu fiquei calada o caminho todoo até ela me deixar em casa pela última vez, só aí que desabei e chorei um monte no ombro dela, depois descendo o condomínio me senti a pessoa mais fraca de todas, isso só confirmou o que eu tinha aprendido, preciso ser mais forte, preciso aguentar mais as situações de cabeça erguida. E assim estou.
Engoli tanta coisa, empurrei lá pra dentro, fundo o suficiente pra não correr risco de achar e amolecer de novo, que acabei não achando mais, e o foda é que não adianta, a dor não parou de existir, ela apenas não está ao alcance dos meus "olhos", então sobre o que escrever? Se nem eu mesma reconheço minhas dores?
Passa o tempo e eu vou vivendo no piloto automático, talvez isso seja bom, o problema é que me toquei, me toquei que meu rosto não tinha mais a mesma expressão, e que quando o Joelson me cutucou e perguntou: o que você tem? Eu vi que tinha alguma coisa, mas não sabia dizer o que era, eu tava arrumada, com tudo aparentemente certo, depois de um feriado praticamente todo dentro da igreja, e mesmo assim, aqueles músculos do rosto relaxados só tinham espaço na foto do desktop do meu computador.
Eai?
Será que eu me sinto sozinha? Será que eu sinto falta de alguém? Das minhas amigas distantes, de algum relacionamento talvez... será?
Do fundo do meu coração, não sei responder.
Só sei que apesar de tudo, ainda choro em frente ao monitor vendo meia dúzia de fotos de um personagem surreal, de um casal que nunca existiu além da imaginação de uma menina cega, e também, de um casal que é a prova ácida de que todo o pesadelo foi verdade, e o pesadelo não terminoun ainda, supõe minha cabeça confusa, mas talvez seja só impressão...
ou não.
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